quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que pensam os brasileiros sobre os índios brasileiros

http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001545/154565por.pdf
1.2 O que pensam os brasileiros sobre os índios brasileiros

Historicamente os índios têm sido objeto de múltiplas imagens e conceituações
por parte dos não-índios e, em conseqüência, dos próprios
índios, marcadas profundamente por preconceitos e ignorância. Desde a
chegada dos portugueses e outros europeus que por aqui se instalaram,
os habitantes nativos foram alvo de diferentes percepções e julgamentos
quanto às características, aos comportamentos, às capacidades e à
natureza biológica e espiritual que lhes são próprias.
Alguns religiosos
europeus, por exemplo, duvidavam que os índios tivessem alma. Outros
não acreditavam que os nativos pertencessem à natureza humana pois,
segundo eles, os indígenas mais pareciam animais selvagens. Estas são
algumas maneiras diferentes de como “os brancos” concebem a totalidade
dos povos indígenas a partir da visão etnocêntrica predominante
no mundo ocidental europeu.

Dessa visão limitada e discriminatória, que pautou a relação entre
índios e brancos no Brasil desde 1500, resultou uma série de ambigüidades
e contradições ainda hoje presentes no imaginário da sociedade
brasileira e dos próprios povos indígenas. A sociedade brasileira majoritária,
permeada pela visão evolucionista da história e das culturas,
continua considerando os povos indígenas como culturas em estágios
inferiores, cuja única perspectiva é a integração e a assimilação à cultura
global.


Os povos indígenas, com forte sentimento de inferioridade,
enfrentam duplo desafio: lutar pela auto-afirmação identitária e pela
conquista de direitos e de cidadania nacional e global.
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As contradições e os preconceitos têm na ignorância e no desconhecimento
sobre o mundo indígena suas principais causas e origens
e que precisam ser rapidamente superados. Um mundo que se autodefine
como moderno e civilizado não pode aceitar conviver com essa
ausência de democracia racial, cultural e política.
Como se pode ser
civilizado se não se aceita conviver com outras civilizações? Como se
pode ser culto e sábio se não se conhece – e o que é bem pior – não
se aceita conhecer outras culturas e sabedorias?

Enquanto isso não acontece, continuamos convivendo com as contradições em relação
aos povos indígenas, as quais podemos resumir na atualidade em três
distintas perspectivas sociais.


A primeira diz respeito à antiga visão romântica sobre os índios, presente
desde a chegada dos primeiros europeus ao Brasil. É a visão que
concebe o índio como ligado à natureza, protetor das florestas, ingênuo,
pouco capaz ou incapaz de compreender o mundo branco com suas
regras e valores. O índio viveria numa sociedade contrária à sociedade
moderna. Essa visão criada por cronistas, romancistas e intelectuais,
desde a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, perdura até os dias
de hoje e tem fundamentado toda a relação tutelar e paternalista entre
os índios e a sociedade nacional, institucionalizada pelas políticas indigenistas
do último século, inicialmente, por meio do Serviço de Proteção
ao Índio (SPI) e, atualmente, pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Aqui o índio é percebido sempre como uma vítima e um coitado
que precisa de tutor para protegê-lo e sustentá-lo, isto é, sem tutor ou
protetor os índios não conseguiriam se defender, se proteger, se desenvolver
e sobreviver. Daí a idéia da FUNAI como pai e mãe, ainda muito
presente entre vários povos indígenas do Brasil.
A segunda perspectiva é sustentada pela visão do índio cruel, bárbaro,
canibal, animal selvagem, preguiçoso, traiçoeiro e tantos outros
adjetivos e denominações negativos.
Essa visão também surgiu desde a
chegada dos portugueses, através principalmente do seguimento econômico,
que queria ver os índios totalmente extintos para se apossarem de
suas terras para fins econômicos. As denominações e os adjetivos eram
para justificar suas práticas de massacre, como autodefesa e defesa dos
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interesses da Coroa. Ainda hoje essa visão continua sendo sustentada
por grupos econômicos que têm interesse pelas terras indígenas e pelos
recursos naturais nelas existentes. Os índios são taxados por esses grupos
como empecilhos ao desenvolvimento econômico do país, pelo simples
fato de não aceitarem se submeter à exploração injusta do mercado
capitalista, uma vez que são de culturas igualitárias e não cumulativistas.
Dessa visão resulta todo o tipo de perseguição e violência contra os
povos indígenas, principalmente contra suas lideranças que atuam na
defesa de seus direitos.
A terceira perspectiva é sustentada por uma visão mais cidadã, que
passou a ter maior amplitude nos últimos vinte anos, o que coincide
com o mais recente processo de redemocratização do país, iniciado no
início da década de 1980, cujo marco foi a promulgação da Constituição
de 1988.
Eu diria que é a visão mais civilizada do mundo moderno,
não somente sobre os índios, mas sobre as minorias ou as maiorias
socialmente marginalizadas. Esta visão concebe os índios como sujeitos
de direitos e, portanto, de cidadania. E não se trata de cidadania comum,
única e genérica, mas daquela que se baseia em direitos específicos,
resultando em uma cidadania diferenciada, ou melhor, plural. Aqui
os povos indígenas ganharam o direito de continuar perpetuando seus
modos próprios de vida, suas culturas, suas civilizações, seus valores,
garantindo igualmente o direito de acesso a outras culturas, às tecnologias
e aos valores do mundo como um todo.


Direitos específicos e cidadania plural indicam teoricamente que os
povos indígenas têm um tratamento jurídico diferenciado.
Por exemplo,
é concedido a eles o direito de terra coletiva suficiente para a sua reprodução
física, cultural e espiritual, e de educação escolar diferenciada
baseada nos seus próprios processos de ensino-aprendizagem e produção,
reprodução e distribuição de conhecimentos. Dessa nova perspectiva,
do ponto de vista dos povos indígenas, trataremos de forma mais
aprofundada nos próximos capítulos.
Por ora, interessa saber um pouco mais sobre como os brasileiros
não-índios percebem e concebem o futuro de vida dos povos indígenas
do Brasil. Para isso, utilizaremos uma interessante pesquisa realizada
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pelo IBOPE a pedido do Instituto Socioambiental (ISA) em 2000, por
ocasião das comemorações dos 500 anos do “Descobrimento do Brasil”
e publicada por Povos Indígenas no Brasil (ISA, 2000). É uma pesquisa
de opinião pioneira desta natureza, envolvendo povos indígenas. Segundo
o IBOPE, foram ouvidos 2.000 homens e mulheres entre 24 e 28 de
fevereiro daquele ano.

Imagem dos índios:
78% dos entrevistados revelaram ter interesse
no futuro dos índios sobre os quais prevalece uma visão
positiva;
88% concordam que os índios ajudam a conservar a
natureza e vivem em harmonia com ela, e que não são preguiçosos,
mas encaram o trabalho de forma diferente da sociedade
branca ocidental;
89% afirmaram que os índios não são ignorantes,
mas possuem uma cultura diferente da cultura branca
e que só são violentos com aqueles que invadem as suas terras
para tomar-lhes.


As terras indígenas:
Apenas 22% dos entrevistados consideraram
que os 11% das terras do Brasil de posse dos índios sejam muita
terra para eles, enquanto que
68% entendem que a extensão das
terras indígenas é adequada ou suficiente;
70% dos brasileiros
entrevistados consideraram que os índios, mesmo falando português
e se vestindo como os brancos, devem ter seus direitos
territoriais garantidos.


O direito à diferença:
Há quase um consenso nacional quanto ao
reconhecimento dos direitos dos índios de serem diferentes dos
brancos, nos modos de viver, de pensar e de trabalhar;
92% dos brasileiros acham que os índios devem ter os direitos de continuar
vivendo de acordo com os seus costumes e suas culturas;
67% discordam que os índios devam ser preparados para abandonar
suas aldeias e selvas para viver como e com os brancos.


Futuro: Em razão do trágico processo histórico vivido durante
os 500 anos de colonização, a garantia do futuro dos povos indígenas
continua, na opinião de muitos brasileiros, a ser muito
incerta;
45% expressaram otimismo quanto ao futuro dos povos
indígenas do Brasil, tanto com relação a continuarem vivendo
nas suas terras quanto à preservação da sua cultura, enquanto
21% manifestaram pessimismo quanto a isso.
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Papel do governo:
A maioria dos brasileiros entrevistados acha
que o papel do governo brasileiro é garantir a efetividade dos
direitos indígenas para que continuem vivendo de acordo com
seus modos de vida desejada, implantando programas de saúde
e educação adequados (48%), demarcando as suas terras (37%) e
estimulando a produção de bens voltados para o mercado (31%);
82% acham que o governo federal deveria atuar para evitar a sua
extinção. Os entrevistados apontaram três principais problemas
enfrentados pelos povos indígenas: invasão das terras indígenas
(57%), desrespeito à cultura (41%) e doenças transmitidas pelo
contato com os brancos (28%).

A opinião pública brasileira, expressa por meio da pesquisa acima
mencionada, confirma uma tendência percebida na prática cotidiana
dos povos indígenas: a do aumento progressivo de pessoas e de segmentos
sociais que vão superando a visão estereotipada sobre os primeiros
habitantes do Brasil.

Dito de outra forma, há uma consciência cada
vez maior de que os povos indígenas constituem, sim, um dos pilares
da sociedade brasileira e é uma referência importante, senão central,
da identidade nacional, assim como é o negro, sem os quais o Brasil
não é possível ser ele mesmo
.

Este caminho para o reencontro com sua história e sua origem pode significar um reencontro consigo mesmo, única possibilidade de seu desenvolvimento pleno, justo, democrático e
igualitário diante da diversidade étnica e cultural de seu povo.

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